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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

por Sabrina Telles
" E se, de repente, a gente não sentisse a dor que a gente finge e sente "
Refugio-me nas palavras e esqueço. Esqueço o que vinha fazer aqui, se iria lhe falar sobre mim; como se estivesse escrito algo na areia e um vento mais forte embaralhasse tudo antes que fosse possível decifrar, Sente?
Eu me entrego, e me entrego. A sensação assemelha-se ao infantil cheiro verde de alfazema. "Sinto o vento me tocar, espero você chegar" ? Mas meu consciente já não sabe ao menos quem é "você". Pois, desse modo, lhe espero.
O vento sopra pra aliviar qualquer dor que ainda reste. O branco é azul. Já estou voando. O voo oscila paralelo aos acordes do piano: subindo e descendo, subindo e descendo... Repouso melodicamente na areia. E, então, fecho o livro.
Meus cílios vão aos poucos se separando e me encontro deitada, frágil, com olhos abertos.
"O sonho é o que temos de nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso."
Fernando Pessoa

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

por Sabrina Telles
O Haiti não é aqui
não foram seus filhos
não foram seus amigos
não foi seu país
não foi sua cidade
não foi sua identidade
não foi seu passado, seu presente;
e o seu futuro? o nosso?
O Haiti não é aqui, mas poderia
ser.
Você suportaria?
É inimaginável (eu sei)
É irreversível
É irremediável.
Mas não totalmente:
ou
" Pense no Haiti, reze pelo Haiti "

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

por Sabrina Telles
Tudo Novo de Novo

Se continuasse desejando durante o ano tudo o que exponho no seu início, tudo seria diferente. Acredito que não acreditamos em nós mesmos. Acredito que não acreditamos no nosso poder.

Esse ano vou acreditar no meu poder! Vou acreditar em vocês todos também. A escada está crescendo. Desejo degraus. Mais e mais e mais. E vamos subir. Vamo que vamo! Caminhar, cantar e subir. O som não pode parar. É o ano do tudo. Por que não seria? Por que não sermos? Vamo que vamo! O tempo nos permite, o tempo não envelhece. Palavras ainda nos permitem. Fé em Deus! Vamos subir. E como sempre: " vamos de mãos dadas ". Desejo a todos tudo como desejei ano passado e como vou desejar provavelmente ano que vem; mas desta vez vou acreditar ainda mais!

♪ ♫ Ain't no mountain high enough, ain't no valley low enough, ain't no river wide enough .... ♪ ♫

PS: Agradeço a todos que passaram por aqui em 2009.

domingo, 20 de dezembro de 2009

por Sabrina Telles

Devagar: o mais rápido possível
Como se pudesse absorver suas histórias, observo as pessoas pela rua. "Pela janela do quarto pela janela do carro, pela tela, pela janela". Por trás de cada expressão, de cada andar; há um passado e um futuro. Tento decifrá-los. Não, não os decifro de fato. Atribuo, na verdade, um sentido a tais signos da maneira que minha imaginação acha mais adequada, mais coerente.
Tornou-se involuntário: eu observo. Pronto! É isso! Prepotentes os meus olhos sempre foram, sempre curiosos, sempre querendo mais e mais. Uso-os no presente, como se o presente existisse.
Enquanto isso, o tempo passa, o tempo cronológico passa. E eu? Sinto-me fraca pra acompanhar seu ritmo na velocidade considerada necessária. Nunca se satisfazem: nem as pessoas, nem o Tempo, nem as coisas. "São tão fortes as coisas, mas eu não sou as coisas e me revolto". Revolto-me menos comigo mesma do que com as coisas pra lhe ser sincera. Neste instante, os outros são culpados. Talvez não haja mais espaço em mim para culpa. Preenchi simplesmente. Preenchi com coisas melhores. Preencho com o passado e presente alheio.
E minha história? Vivo-a sim. Há sempre um espaço enorme para a saudade em mim. Mas quero agora o presente. As horas, os minutos, os segundos. O presente mais que instantâneo. A roda no chão, o ruído da respiração, o piscar de olhos. Apenas com uma condição: sem tanta velocidade; e sem anular a aceleração. "É com esse que eu vou". Estou andando devagar o mais rápido possível.

"O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente o chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará num imediato que absorve o instante presente e torna-o passado." Água Viva.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

por Natália Carvalho

Significado particular

Poesia é música,
é o ritmo,
o jogo das palavras,
como elas se encontram.
A beleza da fonética,
a forma de encaixe,
como peças de um mesmo tabuleiro.
A própria melodia,
explícita ali
em uma simples rima
ou nas mais complexas.
É deixar fluir.
É deixar sentir.
É deixar amar.
É a expressão.
É a compreensão.
É a exaltação.
É a dignificação.
É arte,
ar,

imagem,

ação.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

por Sabrina Telles

Apenas poesia e banana real?

(reflexões com Buh)

Não procuro o melhor dos melhores. Este deve ser menos interessante. Prefiro o melhor em si, o melhor parcial. Aqueles defeitos contidos que emergem aos poucos me animam. Compartilho com os meus tantos; Identifico-me com eles:
Os mais verdadeiros que a real realidade possa fazer transparecer. São meus preferidos.
Cada olhar cada gesto cada mente cada existência cada um cada mundo.

Se o contrário quisesse : Não leria, aqui, poesia outra senão Drummond; Teria intoxicação de banana real; Desligaria definitivamente a televisão ! Amigos? Um.. dois.. três no máximo! Não caminharia senão pela praia ao pôr-do-sol; Não dormiria senão em rede; O guarda-roupa seria verde;
Ouviria Alicia e Chico somente; Não amaria senão avassaladoramente; Escreveria essas palavras e as apagaria aleatoriamente.

Imperfeição permite transformação, revolução, evolução. Como se opor?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

por Sabrina Telles

Autorreciclagem
É possível. A quantidade de elementos que se encontram no universo do possível é tanta que assusta. Somos, no fim das contas, uma geração de adultos que nos contentamos com pouco. Com muito pouco. Quando tínhamos menos idade, éramos maiores. É possível sermos mais. [ Não! Não quero pensar nisso! ] Somos acobertados por nós mesmos, por nossa consciência minúscula. Não quero mais minha proteção! Um futuro tentacular está a minha espera, mergulharei. O dia clareia quando a mente esclarece; e as nuvens já estão se dissipando. Sim... vejo o azul; sinto o azul; amo o azul. Amo porque é inevitável gostar do que nos faz bem. Vou tratar de cuidar disso agora. O mundo nos grita: "Sigam-me os bons". E nosso tempo tá passando. Um piscar de pálpebras é suficiente para percebermos nossa efemeridade. Há olhares que nos definem e eu ficarei presa a esses. Só a esses, ... somente aos essenciais... Vou me reconstruir, senhoras e senhores! Desejo também a todos uma boa sorte.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

por Sabrina Telles

Não deixaremos o samba morrer

Olhávamos pela janela, eu via o céu da cor do manto da rainha das águas. E ventava. Uma tarde tranquila. E ventava triste. As pessoas por aquelas ruas podiam desconhecer, mas as pedras sabiam. Por aquelas pedras subíamos, não eram nossos pés que elas sentiam falta. A saudade reinava, pois Antonio Luís não as pisa mais. Acima disso, além disso, em tudo isso; ele vive. Vive porque ele construiu muito e todo esse muito vai viver sempre. Viverá nos sons até quando os sons existirem. Viverá na luta até quando a luta existir. Vive porque tudo dele vive.
Fique com Deus e com todos os orixás, Neguinho.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

por Sabrina Telles
Devaneios, inquietações

O sol ainda está quente, mas não mais ofusca pensamentos.
Encontro-me com todos as sensações, todos os sentimentos, todos os gestos.
Não sinto nada.
Sinto tanto tudo que chego ao nada, da mesma forma que todas as frequências visíveis do espectro óptico formam a cor branca.
É incontrolável.
Saber qual o próximo passo não significa mais ter condições para fazê-lo, mesmo que saibamos exatamente como.
E existem outras questões.
Por que existem outras questões?
"Sabe lá, sabe lá; o que não ter e ter que ter pra dar; sabe lá"
Nem sempre nos permitem permitir.
That's (must be) the question!
Sabe aquela letra de música que você me pedira? Eu já a tenho.
Eu tenho essa e outra, mas não tenho mais sua presença.
Saudade? Sinto... de você... mas só de vez em quando.
Sinto muito mais saudade de mim mesma.
Permaneço no meu silêncio, mas este já começa a incomodar um pouco, sabe?
Nem me lembro a última vez que gritei.
Não que apenas me construo no grito. Longe disso!
É que gritar é bom.
- Sabrina, não acelere muito, não, viu?
Você sentirá o vento tocar intensamente, contudo verá somente borrões coloridos.
Sinto falta de mim mesma, e espero-me.
Espero meu momento, meu tempo.
Não tenho pressa: paciência aprendi a ter foi na agonia.

"Não se afobe, não que nada é pra já; o amor não tem pressa; ele pode esperar em silêncio.."

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

por Sabrina Telles
no meu silêncio

(da minha janela em 08.10.09)

Encontro-me ansiosa para escrever, não tenho nada em mente. Não penso em nada que eu considere interessante agora. A tarde está quente como se o sol catártico atingisse as pessoas que andam pela rua. O sol incide com uma vontade de expressar-se em tudo. Asfalto, carros, pensamentos: "Sintam-me". Mas o dia está quieto, exceto pelo rádio que canta músicas aleatórias e, volta e meia, anuncia algo novo. Talvez não o dia, mas eu. Estou em silêncio e amando.
Confesso que aprendi a ter uma paixão avassaladora pelo silêncio. Terminei "No teu deserto" do Miguel de Sousa Tavares. Como escreve como eu amo. E não fiz mais nada. Já estava em silêncio, Miguel tirou os meus pés do chão e o sol desta tarde ofuscou até minhas palavras.
Daqui a pouco, o sol irá se pôr e eu não estou preparada. Ultimamente, as despedidas tem me comovido mais que o normalmente esperado. A noite me amedronta um pouco. Ela traz consigo os pensamentos e as palavras que o sol havia ofuscado. Para esses, eu, definitivamente, não estou preparada. E a lua parece saber disso e se põe a me pirraçar. Tenho que aguentar a melancolia pirracenta da lua!
Agradeço aqui às estrelas. Ainda não sei como a lua não conseguiu convencê-las a se calarem, pois eu as ouço. As estrelas dizem tanto que não preciso dos meus pensamentos. Elas são autossuficientes no processo de comunicação, com elas permaneço em silêncio e simplesmente ouço. Meu amado silêncio, sereno e tranquilo, a me proteger (da lua).

terça-feira, 29 de setembro de 2009

por Sabrina Telles
Nem Sempre
*

Uma boa amiga
A melhor amiga
Uma boa filha
Uma boa neta
Uma boa aluna
Uma boa ex-aluna
Uma boa irmã
Uma boa sobrinha
Uma boa vizinha
Uma boa passageira
Uma boa pedestre
Uma boa ouvinte
Uma boa leitora
Uma escritora
Uma boa desconhecida
Perambulando pela rua, pela vida
Nem sempre não sou
* Tarsila do Amaral - Morro da Favela

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

por Sabrina Telles
Navegar é Preciso
As vezes, parece que a força peso
- que nos liga à superfície do mundo real -
age com a aceleração muito maior que a gravidade.
Mas só às vezes.
Mas só parece.
Afinal, viver nem sempre é preciso.
• • •

domingo, 13 de setembro de 2009

por Patrícia Soares e Sabrina Telles

Caminhos das secas

Leva nas tuas asas, leva

Me leva que quero ver meu Pai

Caminho bordado a fé

Caminho das secas

Me leva que quero ver meu Pai

Os pés que seguem seu rumo, lentos

Como quem quer muito chegar

Como quem se acostumou ao silêncio do nada

Como quem já não quer mais voltar

Os olhos de uma vida sofrida

Aguenta, que tamos chegando já

Na roda cantar com ocê

Ouvir as harpistas

Me leva que quero ver meu Pai

Saudade, que nasce nos olhos, some

-com a fome-

Coração não quer acreditar

Caminho tecido a pé

Caminho das secas,

Me leva pois não consigo mais

Leva nas tuas asas, leva

Me deixe fugir de tudo aqui

Não fuja de minha vida

E me chame pra sua

Pego minha cria e vou partir

Leva nas tuas asas, leva

Me leva que quero ver meu Pai

Paródia da música "Caminho das Águas":
Letra original por Rodrigo Maranhão.
Interpretada especialmente por Maria Rita.

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